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A Carreira de Planejador Financeiro no Brasil: Desafios e Oportunidades

Janser Rojo, CFP®:

Quando você tem uma dor de dente, está claro que o profissional certo a procurar é um dentista. Ele é um especialista no assunto e saberá como resolver o problema. Mas e quando o problema é dinheiro, a quem pedir socorro? Ainda, no Brasil, a resposta acaba sendo o banco ou uma agência de crédito pessoal.

Será que estas instituições realmente resolvem o problema? Gosto de fazer novamente a comparação com o dentista: ele vai examinar tudo que aconteceu para o problema aparecer. Irá, inclusive, examinar os outros dentes para ver se não correm o mesmo risco. Determinará o tratamento ideal durante e após a consulta, com necessidade ou não de retorno. Poderá, ainda, receitar algum medicamento a ser comprado na farmácia para ajudar no tratamento. Sua preocupação é identificar todas as causas para o problema, tratá-lo e educá-lo para que aprenda a se prevenir.

Médico ou farmácia?

Pois bem, o banco ou a agência de crédito pessoal equivalem somente à farmácia neste exemplo. Eles vendem o remédio, mas não fazem o tratamento completo. Este “tratamento” é feito por um especialista chamado Planejador Financeiro Pessoal, uma opção de carreira crescente no Brasil, que pode ajudar seus clientes a administrarem melhor o recurso DINHEIRO para a conquista de seus objetivos, independentemente de seu estado atual (excesso ou falta no fluxo de caixa).

Atividade nova

No Brasil, esta ainda é uma carreira nova devido ao nosso histórico econômico. Simplesmente, antes da década de 90, com a hiperinflação, era muito difícil ter um planejamento a longo prazo. Eram pouquíssimos os profissionais que se arriscavam nessa área.

O controle da inflação possibilitou que o brasileiro começasse a ter um maior controle de suas finanças e, com isso, procurasse ajuda especializada para traçar o seu plano financeiro.

No mundo, a carreira de Planejador Financeiro já é bastante consolidada, com números bastante expressivos. Quase 162.000* possuem a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida no Brasil pela PLANEJAR – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros (antigo IBCPF).

Nos EUA, por exemplo, foram contabilizados 249.400 “Financial Planners” ou “Financial Advisors” (como são chamados lá) em 2014*.

Planejador x Consultor x Educador

Várias denominações acabam confundindo o potencial cliente na hora de procurar o profissional certo para solucionar seu problema ou situação pessoal.

O Consultor Financeiro já é uma carreira mais reconhecida pelo meio empresarial. Normalmente, este profissional se especializa nas finanças de empresas e presta consultoria para ajudá-las nesta área. É muito comum achar que um Consultor que entende de finanças da Pessoa Jurídica também vai entender de finanças da Pessoa Física, mas não se engane! São especialidades bastante diferentes.

O Educador Financeiro é o profissional que transmite seu conhecimento por meio de palestras, artigos e cursos, ou seja, sua comunicação é feita “em massa” e não de forma individual.

O Planejador Financeiro Pessoal, por outro lado, é aquele profissional que se especializa nas finanças da Pessoa Física e transmite seu conhecimento de forma individualizada, atendendo às necessidades específicas de cada pessoa e família que o procura.

Nada impede que um profissional “vista os 3 chapéus”, mas é importante entender que existem diferenças entre eles.

Formas de atuação

Não há somente um modelo de negócio possível para a atuação de um Planejador, especialmente no Brasil onde a profissão ainda não é regulamentada.

De forma geral, o Planejador pode atuar de forma independente ou dentro de uma instituição financeira.

Nas instituições financeiras, este profissional se encontra principalmente no segmento Private, onde estão os clientes com grandes volumes disponíveis para aplicações financeiras. Nestes casos, o banco consegue dar um atendimento mais individualizado a cada cliente em forma de serviço e não somente venda de produtos (novamente voltando ao exemplo do início do texto, mais parecido com o dentista e menos com a farmácia).

A Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) ampliou as exigências para estes profissionais e, até 2016, as instituições deverão ter 75% dos gerentes e desenvolvedores de negócios com a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida no Brasil pela PLANEJAR – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros (antigo IBCPF).

Para os planejadores independentes, existem aqueles que preferem atuar sozinhos ou em sociedade. Há também aqueles que se juntam a uma metodologia consolidada, aproveitando-se de modelos e ferramentas já desenvolvidos para acelerar seu negócio. No mundo, este é o modelo mais comum e que agrega o maior nº de planejadores.

Remuneração

Em relação à remuneração, é importante destacar que o Planejador Financeiro é acima de tudo um prestador de serviço e, portanto, é remunerado diretamente pelo seu cliente. Existe também o modelo onde o profissional é remunerado pelos produtos que vende, porém há certas limitações regulatórias para o ganho nas duas pontas (produto + serviço) que devem ser verificadas já que podem conduzir a um claro conflito de interesses.

Mesmo para os independentes, a certificação CFP® é recomendada pelo caráter de excelência que confere àqueles que a possuem já que pressupõe que o profissional mantém altos padrões nos 4 pilares: Experiência Profissional, Conhecimento Técnico, Educação Continuada e Ética. Possuir a certificação, portanto, é um grande diferencial.

Tendências para o planedor

O Brasil vive as condições propícias para o desenvolvimento rápido da carreira, com destaque para:

1) Crise financeira, levando à necessidade de otimização dos recursos pessoais;

2) Evolução rápida do Mercado Financeiro, tornando evidente a necessidade de assessoria de um especialista pelos leigos no assunto;

3) Fusões e aquisições nos grandes bancos, trazendo insegurança no emprego para profissionais altamente qualificados;

4) Maior atenção à Educação Financeira, com o acelerado crescimento de livros, vídeos, blogs e cursos sobre o assunto.

5) Inflação em patamares razoáveis que permite o planejamento a longo prazo e o cálculo de projeções que demonstram as vantagens de uma boa administração do dinheiro.

Assim como no resto do mundo onde esta profissão nem existia há algumas décadas, todos estes fatores levam ao reconhecimento pela população da necessidade de um serviço especializado que leve em consideração os objetivos e projetos de cada um e oriente o melhor uso dos recursos financeiros para alcançá-los.

O surgimento da demanda também estimula a criação da oferta, atraindo cada vez mais profissionais para essa área. Hoje, já existem cursos para quem pretende obter experiência teórica e prática sobre a carreira de Planejador Financeiro Pessoal.

Este ciclo virtuoso prossegue à medida que os profissionais começam a se diferenciar em suas propostas de valor, atingindo diferentes nichos e demandas, tornando o serviço cada vez mais acessível e adequado em cada caso.

Sem dúvida, é um momento singular para quem conhece o tamanho e relevância desta “indústria” nas economias mais desenvolvidas e percebe a oportunidade de mercado que ainda temos pela frente no Brasil.

Os médicos e dentistas já alertam há muito tempo sobre os riscos da automedicação. Agora, cabe aos Planejadores Financeiros Pessoais mostrar que o tratamento completo também traz muitos benefícios para a saúde financeira de seus clientes.

** http://money.usnews.com/careers/best-jobs/financial-advisor

Janser Rojo, CFP® é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar (Associação Brasileira de Planejadores Financeiros). Email: janser.rojo@gfai.com.br

As respostas refletem as opiniões do autor e não da Planejar. O site e a Planejar não se responsabilizam pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.

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