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Classificação adequada do perfil do investidor pode evitar problemas e perdas

Marcia Dessen, CFP®:

Fatos: a maioria dos investidores não detém conhecimento suficiente acerca dos produtos de investimentos e confia na recomendação que recebe dos assessores; apesar da frágil abordagem de que o cliente é o centro das atenções, a indústria financeira é movida pela venda de produtos.

Consequência: recomendação e compra inadequadas de produtos.

Fundos multimercado arrojados, por exemplo, podem ser adequados a um investidor jovem, em fase de construção de patrimônio, longo horizonte de tempo, com alta tolerância e capacidade de correr risco.

Entretanto, não faz sentido que esses fundos respondam por 70% da carteira de um investidor aposentado de 82 anos que deseja preservar seu patrimônio e cujos rendimentos são necessários para complementar sua renda familiar.

Quando lhe é perguntado sobre o perfil de risco com o qual se identifica, ele se apresenta como conservador. E não poderia ser diferente, com base na breve descrição apresentada.

Me surpreende constatar que a alocação inadequada de ativos se repete nas três carteiras de investimento que mantém com três instituições financeiras distintas.

Pesquisei a classificação do perfil de risco atribuído ao investidor e encontrei a causa dos equívocos. Uma das instituições o classifica como arrojado. As outras duas não conhecem seu cliente, o cadastro está desatualizado.

Muito aprendizado podemos tirar desse exemplo, que, infelizmente, não é fictício.

Os investidores precisam assegurar que o perfil de risco a ele atribuídos está correto e reflete sua disposição de correr risco e sua capacidade de lidar com eventuais perdas decorrentes de investimentos mais arriscados.

Como fazemos isso? Respondendo ao questionário aplicado pela instituição financeira de forma consciente e responsável, ciente de que a classificação será utilizada pelos assessores para basear a oferta de produtos. Uma classificação inadequada ampara a oferta de um produto inadequado e, de certa forma, reduz a responsabilidade do consultor.

O aprendizado para os assessores é conhecer melhor o cliente, além do perfil a ele atribuído, para assegurar que a classificação está correta e que é adequada a recomendação de produtos que fará.

Às instituições financeiras e seus representantes, especialmente as que mantém seus cadastros de clientes desatualizados, o alerta de que estão descumprindo a instrução 539 da Comissão de Valores Mobiliários. Transcrevo um trecho da instrução para divulgar a responsabilidade dos intermediários:

“As pessoas habilitadas a atuar como integrantes do sistema de distribuição e os consultores de valores mobiliários não podem recomendar produtos, realizar operações ou prestar serviços sem que verifiquem sua adequação ao perfil do cliente.

É vedado aos intermediários recomendar produtos ou serviços ao cliente quando:

I – o perfil do cliente não seja adequado ao produto ou serviço;

II – não sejam obtidas as informações que permitam a identificação do perfil do cliente; ou

III – as informações relativas ao perfil do cliente não estejam atualizadas”.

Conhece-te a ti mesmo, respeite e imponha respeito ao seu perfil de investidor. Verifique qual é o seu perfil de risco atual nas instituições financeiras com as quais mantém relacionamento comercial. Refaça o procedimento se considerar que o perfil atribuído não corresponde à realidade. Respeitados o nível de tolerância a riscos e os objetivos de investimento, muitos problemas e perdas poderão ser evitados.?

Artigo publicado originalmente na Folha de S.Paulo em 20/09/2021.

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