Consultório Financeiro

Como rebalancear investimento com juro baixo e inflação alta?

“Nos últimos meses a taxa selic caiu, chegando ao menor patamar da sua história. Quando chegou a 2% li muitos artigos orientando sobre como realocar meus ativos tendo em vista a queda da Selic. Porém, a inflação vem aumentando e já ouvi dizer que uma das formas de conter o aumento da inflação é subindo a taxa de juros. E agora? O que fazer com meus investimentos? Devo rever minha carteira ou esperar mais?”

Mailson Hykavei, CFP®, responde:

Prezado(a) leitor(a),

A recomendação diante da sua preocupação com o baixo nível da Selic e as altas recentes da inflação seria promover mudanças, sem deixar de considerar o seu perfil de investidor em termos de propensão a riscos e ao seu plano de vida e sonhos, tais como a compra ou a troca de carro, a realização de uma viagem, a conquista da casa própria, aposentadoria, entre outros.

A realocação dos seus ativos também deverá levar em consideração, questões macro como a trajetória das taxas de juros e o cenário prospectivo como um todo para a economia, além de avaliar a necessidade pessoal do leitor em relação a utilização dos recursos no curto, médio e longo prazo.

Diante de um cenário de juros nominais baixo e inflação alta, o ideal seria buscar diversificar a alocação dos seus ativos entre classes de ativos de menor risco, atrelados ao CDI, com aqueles de maior volatilidade, associados às prováveis alterações das taxas de juros ao longo do tempo e também considerar, respeitando  seu perfil de risco e expectativa de retorno de mais longo prazo, alocar parcela dos seus investimentos em classes de ativos de maior risco como Ações, Fundo de Ações, Fundos Imobiliários e Fundos de Investimentos no Exterior.    

Por exemplo, alocar determinado percentual da sua carteira, que corresponda a sua necessidade de caixa no curto prazo, em ativos pós-fixados, como Tesouro Selic, CDB-DI de Bancos, RDC-DI das Cooperativas de crédito, LCA/LCI, e Fundos DIs. Já para a parcela que pode esperar ou que podemos chamar de poupança de médio e longo prazo, uma das opções seria o Tesouro IPCA com vencimentos entre 2023, 2026 e 2030 ou fundos atrelados aos índices IMA-B que refletem uma carteira de títulos indexados à inflação medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), que são as NTN-B (Notas do Tesouro Nacional – Série B) que no Tesouro Direto são negociadas como IPCA + com juros semestrais e Tesouro IPCA+. Esta parcela da sua carteira alocada em instrumentos financeiros indexados ao IPCA, além de proteção contra a inflação, pagam um cupom de juros formando o que chamamos de juros real, ou seja, é a taxa de juros paga ao investidor descontada a inflação no período.

Lembrando um dos princípios básicos de finanças, o tripé liquidez-risco-retorno, também conhecido como liquidez-previsibilidade-rentabilidade, talvez possa lhe ajudar a ponderar sua decisão e respeitar seus limites, com certo grau de conforto, quando realizar a nova alocação. O que o princípio nos ensina é que quando optamos em termos dois deles presentes na decisão de alocação, renunciamos ao terceiro. Por exemplo, caso opte por ter liquidez e previsibilidade elevadas, desistirá de ter maior rentabilidade. Por sua vez, caso busque maior previsibilidade com maior retorno, comprometerá a liquidez da carteira. E por fim, combinando maior liquidez com maior rentabilidade terá baixa previsibilidade.

Desejo boa sorte, muita saúde e disciplina, que acredito deva ser uma das suas virtudes como investidor, bem como sugiro atenção para evitar incorrer em erros ligados às finanças comportamentais que nos ensina que as decisões financeiras não são apenas baseadas na razão, mas também em aspectos ligados à psicologia, tais como emoções primárias, influências sociais, crenças e verdades construídas ao longo da vida e padrões de comportamento, o que remetem a alguns pontos da teoria como aversão às perdas, a contabilidade mental, comportamento de rebanho e confiança e otimismo exagerados.     

Mailson Hykavei é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros. E-mail[email protected]

As respostas refletem as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico ou da Planejar. O jornal e a Planejar não se responsabilizam pelas informações acima ou por prejuízo de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações. Perguntas devem ser encaminhadas para: [email protected]

Texto publicado no jornal Valor Econômico em 25 de janeiro de 2021

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