Consultório Financeiro

Devo resgatar fundos multimercados para elevar liquidez?

“Sempre leio em diversos colunistas que a reserva de emergência deve ser no mínimo para seis meses. Essa crise do coronavirus parece que vai superar esse prazo. Devo resgatar meus multimercados para ter mais liquidez?

Roberto Agi, CFP®, responde: 

Caro leitor, realmente manter uma reserva de emergência faz parte de toda estratégia de planejamento financeiro eficiente.   

Com a recente queda na taxa de juros e consequente retorno menor para os investimentos conservadores, a reserva de emergência tem sido, em muitos casos, perigosamente negligenciada. Muitos investidores se sentiam incomodados em manter recursos em investimentos que praticamente só repunham a inflação enquanto investimentos com mais risco entregavam retornos muito superiores. A situação atual que estamos vivendo, coloca à prova e reforça como nunca a importância de possuir um colchão para momentos infortúnios. Ainda que o comportamento da curva de contágio do coronavírus seja previsível, os impactos que a parada brusca causará nas economias ainda são incertos. Um bom exemplo é a dispersão entre as previsões de crescimento do PIB para esse ano, há estimativas perto de 0% assim como quedas de mais de 6%.

Imagino que os multimercados que mantém em seu portfólio, façam parte da reserva de longo-prazo, ou seja, aquela que tem como principal objetivo complementar ou substituir sua renda futura. Um ponto importante é que ao reduzir essa reserva, pode ter que postergar seus planos de independência financeira ou exigir um esforço maior nos próximos anos para compensar essa redução. Além disso, os fundos multimercados cumprem um papel de buscar um retorno superior aos investimentos mais conservadores e são mais eficientes quando possuem baixa correlação com os outros investimentos da carteira. Em cenários extremos como esse, as correlações entre os ativos se aproximam de 1 (praticamente todos andam na mesma direção, o que amplifica os movimentos), alguns fundos conseguiram se proteger ou até entregaram retornos positivos, porém ao sair de um fundo que tenha tido um desempenho ruim, pode ser que não capture uma recuperação caso ela venha a ocorrer. Vale observar o período de liquidez dos fundos multimercados que mantém no portfólio – na indústria, o prazo mais comum é de 30 dias, ou seja, à medida que peça o resgate terá os recursos em conta após o cumprimento desse prazo (importante mencionar que sairá com a cota do final do prazo, então não saberá exatamente como os ativos se comportarão no momento da saída).

Considerando esse prazo e assumindo que ainda está com sua reserva para 6 meses de despesas, não precisa necessariamente pedir o resgate hoje, é possível que não precise mexer nessa reserva de longo-prazo já que há a possibilidade de voltar a gerar renda durante esse período. Monitore o saldo de sua reserva e caso comece a ficar muito baixo, reconsidere a necessidade de resgate dos fundos. Nesse período, é importante que reveja suas despesas e avalie se há categorias que possa reduzir ou eliminar, isso fará com que tenha mais fôlego ao longo desse período. Além disso, pode também aproveitar essa fase para buscar alguma geração alternativa de renda, há exemplos de pessoas que criaram formas de ganhar dinheiro mesmo dentro de casa atuando na produção de alimentos, artesanato, dando aulas, costurando, etc.

Por fim, aproveite esse período para reavaliar seu planejamento financeiro, simulando diferentes cenários para a evolução do seu patrimônio – ter clareza sobre os caminhos que precisa seguir pode trazer mais tranquilidade em momentos como esse.

Roberto Agi é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial  Planner), concedida pela Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros. E-mail: [email protected]

As respostas refletem as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico ou da Planejar. O jornal e a Planejar não se responsabilizam pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações. Perguntas devem ser encaminhadas para: [email protected]

Texto publicado no jornal Valor Econômico em 27 de abril de 2020

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