Consultório Financeiro

Impactos do fim do estímulo monetário

Tenho lido muito sobre o término do programa “quantitative easing” (QE) em outubro. Como este fato impactará a economia e com quais aspectos devo me preocupar pensando na minha carteira?


Arthur Yukio Sinzato, CFP, e José Raymundo de Faria Jr, CFP: 

Caro leitor, em meados de 2007 surgiram os primeiros sinais da crise conhecida como Grande Recessão, e as suas sequelas ainda estão presentes na economia global. Os Estados Unidos, epicentro da crise, recorreram a uma série de medidas para combater seus efeitos. O Fed (o banco central americano) reduziu o juro básico de 5,25% para até 0,25% e criou o programa “quantitative easing” (QE), que consiste na compra de títulos soberanos (Treasuries) e hipotecários visando estimular a atividade e o crédito via injeção de liquidez e redução dos juros de longo prazo. 

No final de 2013, o Fed anunciou a redução gradual (processo conhecido como “tapering”) do QE após dados sinalizarem a retomada da economia. No momento, as compras estão em US$ 25 bilhões/mês e espera-se que cessem em outubro. Após seis anos, o valor das compras atingirá US$ 3,5 trilhões. Para explicar a lógica do fim do QE sobre o comportamento das carteiras, podemos utilizar eventos ocorridos recentemente como exemplos: 

Em meados de 2013, o Fed sinalizou a intenção de reduzir o QE e as taxas de juros dos Treasuries (títulos do Tesouro americano) subiram rapidamente. Por servirem de referência no mercado de renda fixa internacional, geraram pressão de alta nos juros de diversos países, inclusive do Brasil, e títulos prefixados com vencimentos longos apresentaram maior vulnerabilidade. Já o dólar se valorizou na comparação com o real e diversos pares de moeda, pois com a combinação de juros mais elevados e recuperação econômica sustentada, a expectativa era de que os EUA se tornassem importante destino de recursos globais. Em 2014, a confiança sobre a economia dos EUA foi reduzida devido ao inverno rigoroso. O receio de que haveria perda de dinamismo econômico realimentou a expectativa de que a política acomodatícia seria mantida por mais tempo e os investidores globais retomaram o apetite por aplicações com maior rendimento e maior risco, condição típica de países emergentes. 

Estes dois casos ajudam a ilustrar o impacto do fim do QE. Porém, esta é apenas uma fase da normalização da política monetária. O mercado já discute quando a taxa básica voltará a subir, e qual nível atingirá. A lógica tende a ser a mesma: fortes ajustes na política monetária deverão impactar os ativos de modo similar ao que ocorreu em 2013. Ajustes mais lentos tendem a relembrar os movimentos deste primeiro semestre. 

Assim, o ritmo de recuperação dos EUA será essencial para ditar as ações do Fed e o impacto nos ativos. O Fed deverá manter postura cautelosa enquanto os indicadores de emprego e inflação, que compõem seu mandato, não apresentarem sinais bem claros de recuperação dado que houve um complexo trabalho de estimular a economia até a condição atual. Porém, vale relembrar que diversos efeitos do choque da crise ainda não são compreendidos totalmente, elevando o grau de incerteza sobre o cenário econômico prospectivo. 

É importante estar atento a outros fatores (temas geopolíticos, risco de bolhas, ação de outros bancos centrais e mudanças estruturais na China) que acontecem em paralelo e que também serão relevantes na dinâmica dos ativos. 

Considerando as incertezas do cenário, é altamente recomendável manter as aplicações diversificadas e de acordo com o seu perfil de risco, evitando especulações em momentos nos quais muitas variáveis prevalecem indefinidas. 

Rever o planejamento financeiro de tempos em tempos é saudável, e profissionais especializados podem assessorá-lo a investir de acordo com suas necessidades e atualizá-lo sobre a evolução da economia e dos mercados.

Arthur Yukio Sinzato e José Raymundo de Faria Jr são planejadores financeiros pessoais e possuem a Certificação CFP (Certified Financial Planner) concedida pela Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros. E-mails: [email protected] e [email protected]

As respostas refletem as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico ou da Planejar. O jornal e a Planejar não se responsabilizam pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações. Perguntas devem ser encaminhadas para: [email protected]

Texto publicado no jornal Valor Econômico em 18 de agosto de 2014.

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