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Investidor com propósito põe impacto social à frente de rentabilidade

Marcia Dessen, CFP®:

Você sabe para onde vai o dinheiro que investe? O JM, leitor da Folha, não apenas sabe como faz questão de escolher o investimento em razão do impacto que causa na sociedade.

Ele aplica, na prática, um dos critérios ASG, quando decide, conscientemente, permanecer na poupança apesar da rentabilidade pouco competitiva no atual cenário de juros, assunto que abordei em “A poupança e a nova Selic”.

Os critérios ASG (ambiental, social e governança, ou ESG, em inglês) incorporam um olhar que vai além da rentabilidade na hora de definir pelo investimento em determinada empresa, projeto ou instrumento financeiro, contribuindo para o crescimento econômico sustentável.

Um investimento ASG incorpora alguma questão, seja ambiental, social ou de governança, em sua análise de investimento e leva em consideração a sustentabilidade a longo prazo.

Esses investimentos também recebem outras denominações, como investimento responsável, investimento sustentável, investimento de impacto social, investimento ético, títulos verdes (conhecidos lá fora como green bonds), investimentos na área de infraestrutura, entre outros.

Uma das estratégias mais utilizadas pelos investidores no mundo todo é a do filtro negativo, definindo critérios para excluir determinados ativos de sua carteira de investimento. Os setores que figuram entre os mais evitados pelos investidores, devido ao alto risco social e ambiental, são: armas, tabaco, energia nuclear, pornografia, apostas e bebidas alcoólicas.

O filtro positivo, por sua vez, ao invés de excluir ativos, trabalha com a inclusão dos que atendem aos critérios e às normas estabelecidas. Pode ser um investimento específico, normalmente relacionado à sustentabilidade, como a redução da emissão de carbono, ou políticas de inclusão e diversidade no trabalho, que podem atrair mais clientes (e mais vendas) do que outras empresas do mesmo setor.

Voltando ao exemplo do JM, para ele, o grande atrativo da poupança é sua função social: o financiamento da casa própria para muita gente menos favorecida.

O que acontece com o dinheiro depositado na poupança? Quanto dos depósitos em poupança é destinado ao crédito imobiliário?

Os recursos captados em depósitos de poupança pelas entidades integrantes do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) representam fonte relevante de recursos para as operações de crédito imobiliário.

De acordo com a legislação vigente, no mínimo 65% dos recursos depositados na poupança devem ser aplicados em operações de financiamento imobiliário. Outros 20% devem ser recolhidos no Banco Central para cumprimento do depósito compulsório de poupança. O restante dos recursos (15%) pode ser utilizado livremente pelas instituições financeiras.

Assim, R$ 65,00 de cada R$ 100,00 depositados na poupança serão obrigatoriamente destinados a financiamento imobiliário, contribuindo para reduzir o déficit habitacional e a realização do sonho da aquisição da casa própria de muitos brasileiros.

Encerro com a frase do leitor que inspirou a coluna de hoje: “Assim, além do pífio rendimento pessoal, me sinto algo mais útil (ou menos inútil) neste Brasil desigual, onde a falta de teto para tanta gente é um problema para toda a sociedade”.

Ele investe com propósito, renunciando a uma rentabilidade melhor em razão de uma causa.

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Artigo publicado originalmente na Folha de S.Paulo em 21/02/2022.

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