Não consigo mais pagar as parcelas do meu financiamento imobiliário e já estou com saldo negativo no banco. O que fazer?

João Botosso, CFP®, responde: 

Segundo o Banco Central, em novembro de 2020 o endividamento das famílias com bancos atingiu 51,2% da renda acumulada dos 12 meses anteriores. As taxas de juros mais baixas deram condições às famílias de adquirir a casa própria e de usufruir de outras linhas de crédito que estão sendo utilizadas neste momento de pandemia. Vale ressaltar que estar endividado não é necessariamente algo ruim, principalmente quando se está financiando um imóvel. O ponto de atenção é quanto da sua renda está comprometida no pagamento das parcelas. Um descontrole pode gerar inadimplência e o popular “efeito bola de neve”, uma vez que haverá multas, juros e até a possibilidade da perda do bem que você conquistou com tanto esforço. Nesse cenário que você citou, é importante pensar em soluções de curto prazo, definir prioridades e, claro, refletir sobre os aprendizados que se levam de situações como essa.

Comece revisando seu orçamento doméstico e envolva todos os membros da família nesse processo. Duas situações podem ter ocorrido para esse desencaixe: suas despesas podem ter aumentado ou a renda, diminuído. Como a parcela do seu financiamento imobiliário é um custo fixo essencial que você vinha pagando até então, o que pode ter ocorrido com os outros custos, como transporte, alimentação, saúde e educação? E os custos variáveis e supérfluos, como o lazer? O que falar de pequenas despesas que somadas se tornam enormes? Esse diagnóstico é fundamental para você definir que despesas precisa reduzir, eliminar ou postergar. Se você for celetista, uma alternativa é reduzir o valor das parcelas utilizando seu saldo de FGTS para amortizá-las, uma vez que a taxa de juros do financiamento imobiliário tende a ser superior aos rendimentos encontrados no FGTS. Além disso, você pode buscar outras formas de aumentar sua renda, seja com o trabalho atual, seja através de uma segunda fonte.

Talvez neste momento você precise de mais fôlego, então procure seu banco e veja se é possível prorrogar as parcelas enquanto você continua focado em enxugar o orçamento doméstico. Há também a possibilidade de fazer a portabilidade de seu crédito imobiliário para outra instituição, mas fique atento às condições oferecidas, como taxa de juros e custos operacionais. Cuide para não ficar inadimplente, pois isso pode levar à perda do imóvel. Veja no seu contrato de financiamento o tipo de garantia que foi definido. Na garantia hipotecária, a propriedade do imóvel é do devedor e a cobrança da dívida acontece por execução judicial. Na alienação fiduciária, a forma mais utilizada nesses contratos, a posse do imóvel é do credor e a falta de pagamento das prestações leva ao leilão do imóvel. Negocie com o banco também as outras linhas de crédito que estão em atraso.

Outra opção para dar um respiro no orçamento no curto prazo é a venda de algum bem, como móveis ou objetos não utilizados e até mesmo seu veículo. A última opção é vender o imóvel e quitar o contrato. Nessa transação, tenha bastante cautela, pois você pode querer vender o imóvel mais rápido por um valor mais baixo para se livrar da dívida e acabar reduzindo seu patrimônio. Caso sobre algum recurso nessa operação, quite também os outros créditos que você negociou. Então, com o fluxo de caixa reorganizado, você poderá buscar uma opção de moradia que caiba no seu padrão de vida atual. Se for financiar um novo imóvel, é aconselhável que a parcela seja de até 30% da sua renda líquida. Você pode pensar que dará um passo atrás agora, mas é um aprendizado que trará um futuro muito mais próspero.

João Botosso é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros. E-mail: joao.botosso@youpfinancialgroup.com.br

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Texto publicado no site Época Negócios em 06 de abril de 2021.