Nunca tinha investido e resolvi começar a comprar bitcoin. Mas não sei operar gráfico e na maioria das vezes estou perdendo dinheiro. Queria investir mais. Como fazer isso sem saber operar?

José Raymundo Faria Junior, CFP®, responde:

Caro leitor(a)

Bitcoin, assim como outras criptomoedas, pode ser entendido como um ativo: Em dezembro de 2017, a CME, uma das principais bolsas de futuros dos Estados Unidos, lançou contratos futuros de bitcoin e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) permitiu a partir de setembro de 2018 que fundos de investimentos brasileiros invistam de forma indireta em criptoativos, ou seja, permitiu comprar cotas de fundos estrangeiros que tenham exposição ao bitcoin e a outros criptoativos.

Assim, pode-se comprar o bitcoin para longo prazo, mas também é possível fazer operações de curto prazo, principalmente “day-trade”, que é comprar e vender o mesmo ativo no mesmo dia. Mas, isso é pura especulação e não investimento. Vemos muitas declarações nas redes sociais de pessoas ganhando dinheiro com essas operações e, pior, oferecendo retorno diário bem elevado e garantido, algo que não existe no mercado financeiro. O assunto ganha importância ainda mais porque no mês de outubro de 2020 o bitcoin atingiu o recorde em reais.

Bitcoin, como outros criptoativos, tem a sua variação atrelada na sua própria dinâmica (oferta e procura) e também na variação do dólar. Essa dupla variação precisa ser entendida, por que muitas vezes pode-se verificar valorização em dólar, mas pode ocorrer perda em reais.

Em estudo recentemente divulgado pela FGV (“É possível viver de day-trade em ações?”), pouquíssimas pessoas persistem na atividade por vários meses (apenas 0,57%) e do restante, o resultado médio diário foi de um prejuízo de R$49. Apenas 0,13% das pessoas (127 indivíduos) que praticaram day-trade entre 2013 e 2018 conseguiram retorno médio de diário de R$100. O estudo não computou as pessoas que operam de forma especulativa com criptoativos, mas serve de base de comparação. Assim, apesar da possibilidade de ganhos nas operações especulativas, deve-se pensar em bitcoin como investimento para médio e longo prazo.

O primeiro passo antes de investir é ter o cuidado de formar uma reserva de emergência, que deverá equivaler a pelo menos 6 meses dos seus gastos e esse recurso deverá ser aplicado de forma muito conservadora, preferencialmente com liquidez diária e que siga a taxa Selic ou DI. Após esse passo essencial, o investidor precisa conhecer o seu perfil, que em geral é: “conservador”, “moderado” ou “agressivo”. Com base no perfil, pode-se montar uma carteira de investimento diversificada. Bitcoin, pela característica de alta volatilidade, poderá compor a carteira de investimento de um indivíduo com perfil “agressivo” e que possa manter esse valor aplicado no longo prazo. Além disso, os criptoativos devem compor uma parcela muito pequena (talvez 1%) do portfólio diversificado nesse momento.

No Brasil, há fundos multimercados que tem bitcoin em sua composição e recentemente o Fundo de Pensão do Governo da Noruega comprou participação em uma empresa que detém bitcoins. Além disso, no mês de outubro de 2020, um importante banco de internacional considerou que o bitcoin pode rivalizar com o ouro como moeda alternativa e deve se valorizar devido a busca de investidores millennials. Ou seja, os criptoativos começam a integrar portfólios geridos por investidores profissionais.

Há basicamente três formas de investir em bitcoin no Brasil: comprar diretamente através de uma corretora de criptoativo (e observar todos os cuidados de segurança, como: escolher uma corretora segura e ter muito cuidado com a sua chave privada, que é a única forma de provar que é o dono do criptoativo, se esquecer essa chave ou se a mesma for furtada, não terá como ter acesso aos seus ativos digitais), investir diretamente em fundo de bitcoin e/ou investir via fundo multimercardo que tenha bitcoin em sua composição. Caso invista diretamente em bitcoin, não há nenhum problema em resgatar o valor total ou parcial após uma forte valorização do ativo, já que lucro bom é lucro no bolso. Caso decida investir, evite começar com uma parcela relevante de recursos, comece com algo próximo de 0,5%, e aumente os aportes à medida que compreenda melhor o que é um criptoativo.

Enfim, exceto se você for um trader, que dedica a vida em operar no mercado financeiro, pense no médio e longo prazo, diversifique os seus investimentos e perceba que não há necessidade em “saber operar”, ou seja, se preocupar com movimentos de curto prazo. Dedique-se em ser um excelente profissional na sua área de atuação, seja feliz e bem sucedido. Dedique um pouco do seu tempo para estudar mercado financeiro e finanças pessoais e busque um planejador pessoal certificado para orientá-lo em como atingir as suas metas financeiras.

José Raymundo Faria Junior é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros. E-mail:
jrfariajr@gmail.com

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Texto publicado no site Época Negócios em 03 de novembro de 2020.

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