O que é ESG? Vale a pena investir em empresas ESG?

 Luciano França, CFP®, responde:

Apesar da recente popularidade dos investimentos sustentáveis, principalmente o ESG (ambiental, social e governança corporativa, na sigla em inglês), esse não é um assunto novo.

Em 2000, a B3 foi responsável pela criação do IGC, um índice com empresas que apresentam maior nível de governança corporativa na bolsa brasileira. Em 2005, criou o 4º índice do mundo de sustentabilidade, o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE). O ISE é composto por até 40 companhias que atendem a critérios ligados a equilíbrio ambiental, governança corporativa e justiça social. Mais recentemente, em 2010, foi a vez do ICO2, composto por empresas comprometidas com a transparência em suas emissões.

Na prática, uma empresa que apresente preocupações claras no âmbito do ESG considera um pouco da metodologia de cada um dos índices citados acima. O primeiro pilar é focado em uma busca constante por minimizar seu impacto no meio ambiente, com políticas claras de emissões de carbono, cuidados com a água e uso de energia renovável, entre outras variáveis que se enquadram nesse contexto. Um segundo pilar é o de cunho social, que consiste em elementos ligados às pessoas, como a cultura corporativa, que podem impactar a vida de funcionários, consumidores e fornecedores dentro da companhia ou na sociedade como um todo. Por fim, o terceiro pilar está ligado ao processo de governança corporativa, ou seja, de que forma os interesses dos acionistas estão alinhados com a gestão da companhia.

Hoje, muitos investidores não estão apenas interessados no resultado financeiro dos seus investimentos. Eles também têm buscado investir em companhias que estejam preocupadas com o uso de seus ativos e que possam promover questões globais como inclusão social e redução de impactos climáticos.

Diversos fundos de investimento têm se adequado para utilizar as métricas de ESG em seus processos decisórios de seleção de ativos, em uma clara preocupação com os impactos causados pelas companhias.

Os fundos que seguem processos sistemáticos de investimentos para seleção de ações vêm ganhando importância na indústria brasileira. Também conhecido como factor investing ou investimento em estilos, os modelos são parametrizados para selecionar ativos com base em características das empresas que, ao longo de décadas, se mostram mais rentáveis do que os demais ativos.

Para uma característica ser percebida como um fator, ela precisa satisfazer alguns critérios:

– Sólido racional acadêmico;

– Décadas de evidências empíricas;

– Escalabilidade.

Dentro desse contexto, algumas características de ESG se enquadram nesses critérios, mas o ESG por si só não é um estilo de investimento com persistência e pervasividade.

De todo modo, estudos recentes sobre portfólios formados a partir da nota de ESG das companhias trazem informações interessantes. Empresas grandes, de crescimento, com baixa volatilidade de preços nas bolsas e boa qualidade de balanço, costumam apresentar maiores notas de ESG que as empresas menores, mais baratas, com maior volatilidade de preços e com balanços pouco robustos.

Uma das possíveis razões é que empresas maiores e/ou mais rentáveis tendem a possuir melhores processos de sustentabilidade e transparência do que empresas menores e/ou pouco rentáveis. Logo, essas empresas maiores e/ou mais rentáveis apresentam notas melhores.

Dentro desse contexto, cabe aos gestores de portfólios que buscam incorporar o ESG a suas estratégias de seleção de ativos compreender as limitações do processo de atribuição de notas às empresas. A visão para o ESG deve ter uma abordagem mais holística do que a unicamente baseada em dados.

A forma de combinar as métricas ESG, puramente não financeiras, a estratégias tradicionais ou sistemáticas de investimento ainda é uma questão a ser respondida. No futuro, com maior regulação e mudança de comportamento dos consumidores, teremos mais dados sobre ESG e evidências mais claras, principalmente do ponto de vista estatístico, de que empresas ESG apresentam não só uma preocupação clara com o ambiente em que estão e as pessoas que fazem parte de seu universo, como também apresentam maior rentabilidade que seus pares não ESG.

Luciano Boudjoukian França é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros. E-mail: lfranca@avantgardeam.com.br

As respostas refletem as opiniões do autor, e não do site ÉpocaNegócios.com ou da Planejar. O site e a Planejar não se responsabilizam pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações. 

Texto publicado no site Época Negócios em 12 de janeiro de 2021.

0