Seu Planejamento Financeiro

Pretendo viajar pra Disney. Compro dólar agora ou espero?

Pretendo viajar no ano que vem para a Disney. Começo a comprar dólar já ou espero para ver se baixa?

Gisele Colombo, CFP®, responde:

O dilema do melhor momento para a compra de moeda estrangeira assombra a quase totalidade das pessoas que, de alguma forma, precisam lidar com isso. Portanto, prezado/a leitor/a, você não está sozinho/a.

A resposta mais pragmática é: veja quantos dólares precisará juntar, divida em parcelas (mensais, semanais) e monte uma estratégia para comprar com disciplina, fugindo disso somente se a sua data programada de compra coincidir com um daqueles momentos de notícias bombásticas.

O que embasa essa opinião é um misto de fundamentos acadêmicos e de experiência de longo prazo.

Todos os economistas (e muitos outros profissionais que acabam indo para o mercado financeiro) aprendem a fazer modelos que ajudam a encontrar os preços dos ativos, no caso o dólar. O valor relativo entre duas moedas é formado por diversas variáveis e, de forma simplista, as mais relevantes serão apresentadas ao longo do texto. Via de regra, na formação do preço entre duas moedas (taxa de câmbio) são consideradas as diferenças de crescimento do PIB entre esses países, o diferencial de inflação, o balanço de pagamentos (importação x exportação) e as taxas de juros praticadas internamente por cada um dos países em questão. Coloque todos os dados em uma equação e, assim, você chegará a um preço “justo” (teoricamente).

Entretanto, esses dados são atualizados no transcorrer do tempo, sofrendo alterações por vezes bastante relevantes, causadas por fatores nem sempre previsíveis no momento do cálculo inicial. Daí não ser fácil prever o preço em determinado tempo no futuro (no seu caso, daqui a um ano).

No momento em que este artigo está sendo produzido, parece claro que o Banco Central Americano (FED ou Federal Reserve) deve diminuir os estímulos monetários que foram feitos no início da pandemia, com o efeito prático de reduzir a quantidade de dólares circulando no mercado. Essas medidas têm potencial de valorizar o dólar perante outras moedas (além de a economia americana ainda estar crescendo, mais um ponto “pró-dólar alto”).

No Brasil, o fato de o Banco Central estar aumentando a Selic há alguns meses, movimento que deve continuar mais um pouco, ajuda a tornar o real mais atrativo (pelo chamado diferencial de juros), o que seria uma força a favor do real. Porém, a economia brasileira vem apresentando fraquezas e o PIB deve ficar ao redor de zero, ou seja, há riscos relevantes que podem diminuir o apetite do investidor estrangeiro este ano e isso pode contribuir para manter o preço do dólar relativamente alto diante do real.

Outra questão que não pode ser ignorada consiste nas eleições presidenciais no Brasil neste ano. Sim, as especulações sobre como cada possível futuro presidente tratará de temas importantes para a economia do país afetam as cotações do dólar.

Historicamente, os estudos acadêmicos demonstram que a taxa de câmbio entre as moedas costuma caminhar para o ponto justo, mas isso não é linear e, em anos com muitas incertezas, os preços experimentam grandes variações (a chamada volatilidade).

Por conta de todos os fatores expostos de forma bastante simplificada, a estratégia mais adequada é programar compras ao longo do ano, de maneira recorrente, evitando dias de muita variação (normalmente por conta de noticiário) e aproveitando os momentos de maior queda para adquirir uma quantidade um pouco maior. É bem certo que você não terá a menor cotação do ano, mas seu preço deverá ficar alinhado com a média de mercado do período (ou até um pouco menos, com sorte).

Para quem tem um horizonte mais longo para realizar o sonho de viajar, morar ou investir no exterior, a disciplina de comprar moeda de forma recorrente contribui para a formação de um capital em moeda estável a preços bastante bons e, via de regra, muito mais baixos que nas compras emergenciais. Ainda, lembre-se que nem grandes economistas acertam o preço do dólar (eles acertam tendências), então pense seriamente em se programar não apenas para a viagem do próximo ano, mas também para as seguintes, garantindo que seus sonhos se tornem objetivos possíveis.

Gisele Colombo de Andrade é planejadora financeira pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar – Associação Brasileira de Planejamento Financeiro. E-mail: [email protected]

As respostas refletem as opiniões do autor, e não do site ÉpocaNegócios.com ou da Planejar. O site e a Planejar não se responsabilizam pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.

Texto publicado no site Época Negócios em 29 de março de 2022.

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