Consultório Financeiro

Risco e retorno dos fundos multimercados

Consultei os fundos multimercados do meu banco e encontrei riscos e retornos muito diferentes. Observei que as taxas de administração também são distintas. Preciso optar por um fundo com risco elevado para ter um bom retorno? Qual é o peso da taxa de administração na minha escolha?

Alexandre Canalini, CFP®:

Com a redução da taxa de juros, os investidores avaliam dois caminhos a seguir. O primeiro é a redução da expectativa de rentabilidade dos investimentos. O segundo é a possibilidade de aumentar o risco do portfólio para tentar manter a rentabilidade.

Os investidores que consideram elevar o risco do portfólio devem avaliar a disposição e a capacidade de assumir riscos. A disposição de assumir riscos envolve aspectos subjetivos, que fazem o investidor aceitar ter mais risco como contrapartida à possibilidade de obter mais retorno. A capacidade de incorporar riscos é uma questão objetiva: considera a condição financeira, o horizonte de investimento, o conhecimento do mercado de capitais, a relação entre ganhos e gastos e, por fim, a tolerância ao risco e o objetivo de retorno.

Nem sempre a disposição e a capacidade de assumir risco determinarão a mesma estratégia de investimento. Em muitos casos, a capacidade de assumir riscos restringe a disposição do investidor; dessa forma, é importante buscar uma convergência entre estar disposto a assumir riscos e ser capaz de assumi-los.

Considerando que o investidor se mostrou disposto e capaz de incorporar riscos nos investimentos, a análise dos fundos multimercados deve ser feita com muita prudência. Essa categoria de fundos permite ao seu gestor aplicar em diversos tipos de ativos e mercados, a fim de obter um retorno superior à taxa de juros da economia.

Os custos das aplicações nos fundos envolvem a taxa de administração e a taxa de performance. A taxa de administração remunera o gestor sem qualquer compromisso de rentabilidade; a taxa de performance, por outro lado, remunera o gestor somente no caso de o fundo superar um índice de referência, que em boa parte dos fundos multimercados é o CDI. Os fundos multimercados geralmente cobram 2% de taxa de administração e 20% de taxa de performance sobre a rentabilidade que exceder o CDI.

Com a redução da taxa de juros, a taxa de administração é um custo cada vez mais oneroso para o investidor. Com 2% de taxa de administração e o CDI muito próximo de 7,25% ao ano, o gestor já inicia o fundo rentabilizando em torno de 72% do CDI. Nesse cenário, o gestor precisará correr um risco considerável para alcançar pelo menos 100% do CDI.

Partindo da premissa de que o gestor é muito competente e acertará todas as posições com 99% de probabilidade, o fundo, se tiver um risco de 2%, seria capaz de render 9,90% no ano, o que equivale a 136% do CDI. O intervalo possível de rentabilidade para um fundo com risco de 2% e taxa de administração de 2% ficaria entre 0,61% (8,41% do CDI) e 9,90% (136% do CDI).

O fato é que, após a crise de 2008, muitos gestores optaram por reduzir o risco dos fundos multimercados. Os investidores passaram a ficar mais avessos ao risco, e os gestores precisaram se adaptar. Essa exigência limita a rentabilidade possível e precisa ser reavaliada.

Concluímos, por meio de algumas premissas estatísticas, que, com a taxa de juros num patamar de 7,25% e a taxa de administração do fundo em 2%, se o gestor não assumir risco (volatilidade) para o portfólio, dificilmente será possível atingir a expectativa de retorno do investidor.

O novo ambiente econômico deve provocar uma nova avaliação de risco dos investidores e dos gestores, a fim de adaptar as metas de retorno ao novo cenário em que o Brasil está inserido.

Alexandre Canalini é Planejador Financeiro Pessoal e possui a Certificação CFP (Certified Financial Planner) concedida pela Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros. E-mail: [email protected]

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Texto publicado no jornal Valor Econômico em 29 de outubro de 2012.

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