Vale a pena investir em BDR?

 Francisco Levy, CFP®, responde:

Os Depositary Receipts são instrumentos de certificado sobre determinada ação, o que permite a investidores de um país que participem de investimentos de ações negociados em mercados de outros países. No Brasil dos anos 90, esse tipo de investimento foi muito difundido por grandes empresas brasileiras que buscavam investidores no mercado americano, que passaram a lançar os chamados ADRs (American Depositary Receipts). Isso permitiu que investidores do mercado americano tivessem acesso a investimentos nas empresas brasileiras através de transações em dólares na bolsa americana. Esses investimentos, feitos através de recibos, traziam resultados equivalentes aos obtidos por um estrangeiro que abrisse a conta no Brasil, fechasse um câmbio convertendo dólares para reais e, com estes, liquidasse operações de compra de ações de empresas listadas internamente e executadas por uma corretora local. Era um processo bem menos burocrático e de operacionalização muito simples, mesmo para um investidor não profissional.

Recentemente, a B3 disponibilizou o mesmo instrumento, mas no sentido inverso: passou a disponibilizar para o investidor comum brasileiro (não familiarizado com o processo de fechamento de câmbio, abertura de conta de investimento e operacionalização no mercado internacional) o acesso internacional através de transações feitas no Brasil por meio de recibos de empresas negociadas no exterior (BDRs – Brazilian Depositary Receipts). Esses recibos são negociados internamente em seus sistemas, tal e qual uma ação doméstica, com valores de negociação e de liquidação em reais. Para o investidor isso é um processo usual e idêntico ao de se transacionar uma ação no Brasil. Atualmente são negociadas pela B3 centenas de BDRs de diferentes países.

Um banco custodiante faz a ponte entre o mercado externo e o mercado local, deixando bloqueadas as ações dos recibos emitidos e trocando-as por recibos, ou contrariamente trocando os recibos por ações, conforme a solicitação do detentor do ativo. O importante é que para cada recibo existe uma ação custodiada que garante a existência do lastro.

Os preços do BDR equivalem à cotação das respectivas ações em seu mercado multiplicada pela paridade do câmbio da sua moeda de referência. Eventualmente, os lotes podem ter tamanhos diferentes e ter na conta, ainda, algum fator de ajuste de lotes. Caso os preços comecem a descolar em suas equivalências, o mercado os ajusta, solicitando a troca de recibo por papel ou vice-versa para o custodiante, auferindo um pequeno ganho e garantindo a arbitragem entre os mercados.

Ao se investir em BDRs, deve-se levar em consideração que existem dois riscos associados a esse ativo: o da cotação da ação desejada no seu mercado externo e o da oscilação da paridade da moeda desse país em relação ao real.

Normalmente, seria de se esperar que uma aversão ao risco no mercado internacional fosse compensada por um ganho pela desvalorização do real e vice-versa, o que deveria fazer com que esses ativos tivessem uma suavização nas suas volatilidades por conta do efeito do câmbio brasileiro. Entretanto, o investidor precisa ponderar se esse comportamento benigno, considerando o que se viu nos últimos cinco anos, não está eventualmente exagerado, dado o movimento de fortíssima desvalorização de nossa moeda, associado a uma elevação muito forte das bolsas externas (principalmente do setor de tecnologia americano). É preciso considerar potenciais perdas em padrões diferentes do que se viu ultimamente. Vale a máxima de que retornos passados não são garantia de retornos futuros.

É sempre importante lembrar que, sob o aspecto do Planejamento Financeiro, deve ser sempre ponderado se o investimento é consistente com os objetivos, o horizonte de investimento e o perfil de tolerância à perda.

Conclusão

Os BDRs são instrumentos bastante eficientes de diversificação global para o investidor brasileiro comum e não familiarizado com mecanismos de investimento no exterior. São instrumentos de fácil acesso e fácil operacionalização, permitindo uma maior eficiência de diversificação de riscos de portfólio. No entanto, as performances foram anormalmente muito vencedoras nos últimos anos e atualmente exigem bastante cautela do investidor ao analisar o risco prospectivo. A atenção ao risco cambial e a seletividade nas escolhas dos ativos são cruciais neste momento de mercado.

Francisco Levy é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial  Planner), concedida pela Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros. E-mail: francisco.levy@alleawm.com.br

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Texto publicado no site Época Negócios em 01 de dezembro de 2020.