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O que é resiliência financeira?

Luciana Araújo, CFP®, responde:

A resiliência é um conceito amplamente utilizado em diversas áreas. No campo da psicologia, a resiliência está relacionada à capacidade de algumas pessoas de suportar as adversidades da vida e situações dolorosas, como a perda de um ente querido, o fim de um relacionamento ou uma enfermidade. Uma analogia amplamente utilizada para explicar uma pessoa resiliente é a comparação com o bambu, uma planta altamente flexível, capaz de suportar ventos fortes, ao ponto de se deitar até suas folhas chegarem próximas ao chão e, ainda assim, voltar ao seu estado original sem se quebrar. Essa planta se destaca por sua flexibilidade e capacidade de adaptação a diversos ambientes sem limitar sua capacidade de crescimento.

Já a resiliência financeira é a capacidade das pessoas de suportar as adversidades que impactam suas vidas financeiras, como uma diminuição inesperada de renda, a perda de um emprego, uma falência, divórcio e tratamentos de saúde com custos elevados acima da capacidade financeira. Segundo a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), a resiliência financeira também está associada com a disponibilidade de recursos adequados e a capacidade de mobilizá-los de forma habilidosa para o enfrentamento de situações que envolvam um choque financeiro negativo.

A resiliência financeira pode ser construída, e um dos seus pilares é a prática do planejamento financeiro. Através do planejamento, a pessoa pode ter clareza sobre tudo que ganha e gasta, sendo possível, de forma consciente e intencional, evitar despesas que fujam da capacidade de pagamento. Esse monitoramento pode ser feito através de planilhas, aplicativos de finanças pessoais ou até mesmo um caderno.

Outro ponto importante para construir a resiliência financeira é ter disponibilidade de uma reserva de emergência para situações inesperadas. Para autônomos, recomenda-se uma reserva de 12 vezes o valor das despesas fixas mensais e, para quem trabalha pelo modelo CLT, 6 vezes. Já para os servidores públicos com estabilidade salarial, é importante manter uma reserva de pelo menos 3 vezes o valor de suas despesas fixas mensais.

Os investimentos mais adequados para a formação da reserva de emergência são os que possuem liquidez diária, como o CDB DI e a Letra Financeira do Tesouro (Tesouro Selic). A reserva de emergência, além de proporcionar maior segurança financeira, contribui para evitar ou diminuir o estresse financeiro caracterizado por um sofrimento causado pela ansiedade, medo e insegurança em relação ao futuro financeiro.

Além da reserva de emergência, é importante considerar os seguros de vida com cobertura de acidentes pessoais ou doenças graves, pois nessas situações corre-se o risco de as despesas com saúde superarem o valor da reserva financeira.

Outro fator relacionado à resiliência financeira é poder contar com uma rede de apoio, seja de familiares ou amigos que possam auxiliar em situações de crise. Também é importante ter um bom score de crédito, fruto do planejamento financeiro com pagamento de contas em dia, possibilitando a aprovação de crédito mais barato caso a reserva financeira não seja suficiente.

Voltando à analogia do bambu, outro ponto importante para ser uma pessoa financeiramente resiliente e capaz de enfrentar situações de crise sem perder o controle é a flexibilidade psicológica. Pessoas flexíveis são capazes de se adaptar a diferentes circunstâncias e aceitar, quando necessário, mudar o padrão de vida. Por exemplo, mudar para um bairro com custo de vida mais barato, substituir um veículo com custo elevado por um veículo mais popular e até matricular os filhos em uma escola mais barata.

Pessoas inflexíveis tendem a se manter num padrão de vida incompatível com a realidade financeira. Esse é um estado de negação da realidade que gera estresse financeiro e sofrimento. Sendo assim, a flexibilidade psicológica é uma característica primordial para a resiliência financeira. Isso implica aceitar o que não se pode mudar e encontrar estratégias para se adaptar ao necessário, com um senso de autorresponsabilidade.

Por fim, a resiliência financeira é crucial para enfrentar os desafios da vida. A capacidade de se adaptar, aliada ao planejamento financeiro e à construção de uma reserva de emergência, oferece não apenas segurança material, mas também tranquilidade psicológica diante das incertezas. Assim, buscar desenvolver a resiliência financeira é investir no equilíbrio e na capacidade de superar obstáculos, fortalecendo não apenas o aspecto financeiro, mas também o emocional.

Luciana Araújo é planejadora financeira pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar – Associação Brasileira de Planejamento Financeiro. E-mail: [email protected]

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Texto publicado no jornal Época Negócios em 06 de fevereiro de 2024

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