Consultório Financeiro

Como negociar taxa de juro para sair do cheque especial?

“Infelizmente, estou usando o cheque especial, mas daqui a dois meses receberei um recurso que será suficiente para cobrir o saldo devedor. Li que agora quem está no cheque especial vai ter que trocar por um empréstimo de prazo mais longo. Minha preocupação: vou ter que fazer isso mesmo esperando cobrir minha conta daqui a dois meses?”

Lisangela Dossi, CFP®, responde:

Prezado leitor (a),

Primeiramente é muito bom saber que o período de uso do cheque especial está com os dias contados para você. 

Os bancos têm sim obrigação de oferecer produtos de juros menores aos clientes que estão usando o limite do cheque especial, e podem ter prazo variado.  

Segundo a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), os clientes que utilizarem mais de 15% do limite do cheque durante 30 dias consecutivos vão receber a oferta de um parcelamento, com taxa de juros menor que a do cheque especial, juro esse que é definido pela instituição financeira.

Importante salientar que essa troca de empréstimos, do cheque especial para outra modalidade financeira, não é compulsória, ou seja, você não é obrigado a aderir à oferta, pode continuar usando o cheque especial. Entretanto, a taxa de juros do cheque especial é a segunda mais alta cobrada em nosso país, girando em torno de 300% ao ano, perdendo apenas para quem paga valor mínimo da fatura do cartão de crédito.

Antes de qualquer negociação com o banco, recomendo fortemente que você monte — ou caso já tenha, revise — seu orçamento de despesas. Com essa análise criteriosa, você poderá reduzir gastos, negociar prazo de pagamento com credores, sem pagamento de juros e, dessa forma, saber com exatidão o valor de crédito necessário. Pois, independentemente da modalidade do empréstimo, ou mesmo uso do cheque especial, você pagará efetivamente menos por esse dinheiro ao saber o valor exato que precisa.

Outra grande vantagem de revisar ou montar seu orçamento é que vai prevenir que você caia nessa situação novamente.

Após a revisão, sabendo o valor de crédito necessário, vamos ao próximo passo, que é buscar a taxa mais baixa possível, e trocar o tipo de empréstimo, mesmo que seja para um período curto e programado, no caso, de dois meses.

Com a garantia de recebimento do crédito neste curto prazo, você pode recorrer, por exemplo, a credores pessoa física que possuam investimentos de alta liquidez ou mesmo poupança. Poderiam ser investidores ou poupadores que buscam maior ganho de juros em aplicações, alguém que esteja ganhando menos de 0,5% líquido ao mês, e não necessite deste valor a curto prazo. Neste caso, esse credor poderá ficar satisfeito em receber uma oferta que seja o dobro de rendimento, o que será um excelente negócio para ambos.

Se não houver essa opção, poderá pesquisar em vários bancos as taxas de juros de empréstimo pessoal, que podem variar de 2,5% a 6,5% ao mês aproximadamente e, mesmo no pior caso, ainda bem menor que o cheque especial. Você pode pesquisar estes dados na própria internet, não precisa ser apenas no banco em que você já tenha conta corrente. Seu foco é ter a maior quantidade de dados para uma boa negociação.

Em tempo: gostaria de aproveitar e fazer um destaque ao controle orçamentário, pois a falta ou indisciplina neste controle estão entre os grandes vilões que nos levam ao uso do cheque especial. É muito comum as pessoas acharem que o controle de orçamento é tempo perdido ou procrastinarem esse hábito, mas eu desafio todos a manter essa disciplina. 

Em 100% dos casos, quando fazemos o controle frequente de nosso fluxo de caixa, percebemos oportunidades de redução, o que pode refletir em grandes economias num ano, além de recursos para oportunidades que não podem ser perdidas. 

Em nosso dia a dia de planejadores financeiros, somos agraciados por boas surpresas de nossos clientes, fruto deste monitoramento frequente e de direcionamento das despesas que fazemos em conjunto.

Sumarizando, reveja suas despesas, tenha o valor exato que falta em seu orçamento e busque as opções de crédito mais barato, mesmo não sendo compulsório. Sucesso a você!

Lisangela Dossi é planejadora financeira pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros. E-mail: lisangela.dossi@gfai.com.br.

As respostas refletem as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico ou da Planejar. O jornal e a Planejar não se responsabilizam pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações. Perguntas devem ser encaminhadas para: consultoriofinanceiro@planejar.org.br

Texto publicado no jornal Valor Econômico em 01 de outubro de 2018

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